117 – Adele

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Novembro 2015

A cantora britânica mais importante de sua geração, Adele, representa uma significativa expressão de moda para o inverno internacional na visão da i-D Magazine. Em entrevista, ela fala sobre suas músicas, sobre ser mãe e seu medo da fama.

Adele - Cleon Gostinski - Fonte Fashion House Global

 

Quando tinha 10 anos, o avô da Adele faleceu. Ela ficou devastada. “Eu o amava muito, mais que tudo.” Com sua dor, ela sentiu a mesma perda sentida pela avó. “Meus avós sempre tiveram o meu ideal de relacionamento – amizade firme, companheirismo, e tudo mais. Ainda que eu tenha certeza que há muita merda que eu não saiba, como neta deles era uma felicidade, como o céu. Eu estava muito, mas muito triste.” Tão agudo o pesar que ela decidiu se tornar uma cirurgiã cardíaca. “Eu queria consertar o coração das pessoas,” ela disse. Um ano depois, Adele começou a faculdade e tinha escolhido o curso de Biologia, no Balham’s Chestnut Grove School. Até descobrir, bem, diversão – e garotos. Eu desisti disso. Meu coração não estava naquilo mais.” E isso foi para o coração ambicioso.

Uma década depois da morte de seus avós, Adele voltou de Londres para Los Angeles onde ela tinha gravado com o produtor Dan Wilson para o seu álbum de estreia “19”. Ela saiu então para um voo de 11 horas, com o cansaço da viagem estampado na cara, e foi à casa da mãe. “Eu toquei uma versão não-mixada de ‘Someone Like You’,” ela lembra. “Ela [a mãe] estava com os olhos cheios de lágrimas. ‘Você é uma cirurgiã’, ela disse, ‘Você está consertando o coração das pessoas.” Ela para e encolhe os ombros. “É tudo um pouco de ‘De Caso com o Acaso’ de fato, não é?

As alegorias do filme de 1998 da Gwyneth Paltrow, são alguns dos temas encontrados no novo álbum da Adele, “25”. Quando ela começou a trabalhar com a gravação, Adele  foi à loja (“Eu realmente caminho”, ela diz, rindo) e comprou um caderninho. “Eu faço isso em todo álbum. Eu compro bloquinho, cheiro – pois o cheiro é importante – e também compro uma caneta grande e gorda e por fim escrevo minha idade na primeira página. “25” tem cinco pontos de exclamação na frente, porque eu fiquei tipo ‘Que porra que aconteceu?!’ 21 para 25.” A gravação está pra ser mais velha e se tornando mais nostálgica, ela diz. É sobre o que era, o que é e o que pode ter sido. É sobre perder coisas que você não tinha ideia de como eram preciosas, como ter 18 anos e tomar duas garrafas de cidra no Brockwell Park com seus amigos. “Estes eram os mais reais e os melhores momentos da minha vida e eu desejaria saber que eu não seria capaz de sentar no parque e tomar outra garrafa de cidra novamente.” Não é por causa de sua fama, mas sim de sua vida – e a vida dos colegas de escola – que mudaram. Ninguém é mais adolescente. “Eu acho que o álbum é sobre tentar limpar o passado,” diz lentamente. “Tornar-se mãe e passar com os vinte e poucos anos, eu simplesmente não tenho a capacidade de me preocupar com muitas coisas que eu era acostumada a gostar de me preocupar.” Ela ama preocupações? “Sim, eu costumo amar pra caralho o drama disso tudo”, ela exclama, “mas agora eu sou mãe e eu só tenho espaço na minha cabeça. Eu tenho que limpar um monte de coisas pra fora, que é muito terapêutico, pois eu posso aguentar muito rancor. A vida é muito mais fácil quando você não guarda o passado.”

25” possivelmente será interpretado pelos críticos como uma contemplação sobre a fama e a fortuna, mas não parece muito preciso, ou justo. Com as músicas antigas, Adele traduz perfeitamente sua experiência individual em um sentimento coletivo. Ela faz isso com a voz, mas também com as letras, que é muito simples e muito vívida. O coração dela é quebrado com nossos corações quebrados. Ela esforça, nós esforçamos independentemente de quem nós somos ou do que nós fazemos. “25” reflete em como nós mudamos, enormemente, nos nossos vinte e poucos anos, seja um cantor mundialmente famoso ou um formando ou um encanador ou uma nova mãe.

Tanto faz o que “25” é – você terá a impressão que a Adele ainda está descobrindo que a gravação está sendo mixada e masterizada – não é o “21”, o álbum de 30 milhões de cópias vendidas e ganhador de muitos prêmios que impulsionou seu sucesso numa estrela mundial. “Tinha em mente de não fazer o ’21’ novamente. Eu não queria escrever uma gravação sobre corações partidos, afinal eu não estou com o coração em pedaços, mas eu provavelmente não seria capaz de melhorá-lo [21], então qual é o ponto? Pouco clichê, né?” ela diz. “Também, como eu sentia quando escrevi o ’21’ não valeria a pena de novo.” Como ela se sente? “Eu estava muito triste e sozinha. Independente se ser mãe ou namorada, eu não quero me sentir assim de novo,” ela repete.

Adele Laurie Blue Adkins, agora com 27 anos e condecorada MBE – Member of the Most Excellent Order of the Britsh Empire, aparece para a primeira entrevista em três anos, através das portas deslizantes do lounge dos artistas da sede de sua gravadora, XL, lar de Dizzee, M.I.A., e Tyler, The Creator, que saiu com Adele, e em 2014 a descreveu como “cheia de alegria”. Ela descarrega seus fones de ouvido, um MacBook Pro, uma jaqueta promocional da XL, um iPhone 6 e uma bolsa do “Bob, o Construtor”. Ela pede um chá verde; “Estou tentando ser saudável,” ela murmura antes de rir e você pode brincar se for um chinês e beber chá verde. “Lembra o gosto de wontons,” ela diz.

Vestida com uma legging preta, batinha preta, casaco preto, Nike 5.0+ Shields preto, unhas nudes, sem joias, apenas dois brincos tipo argola, Adele entra sem cerimônias no andar e prepara para tocar sete músicas do “25”.”Estou nervosa,” ela disse, lançando um olhar com aqueles luminosos olhos verdes e brinca com os cabos. “Você é a primeira pessoa a ouvir além do meu produtor.” Ela procura por entre sua biblioteca no iTunes. “Certo, merda, okay, qual devo tocar primeiro? Okay, esta chama ‘Hello’ e será o primeiro single.” É a música que quase quebrou a internet quando a XL mostrou num comercial durante o X-Factor há duas semanas. Ela aperta o play. Ouvir a voz da Adele após quatro anos é realmente maravilhoso. Dentre as ofertas do pop brilhante como Taylor e Rihanna e Miley, o vocal da Adele notoriamente ausente. Três minutos e meio depois, a música acaba e nós estamos com lágrimas nos olhos.

Ela gravou o clipe em Toronto no começo de outubro com Xavier Dolan, ganhador do prêmio Cannes Jury Prize. Ele a fez atuar, e ela amou. “Ele disse que eu fui bem. Tive que chorar e tudo mais. Você sabe que, eu me senti envergonhada depois desses anos que eu nunca atuei, pois eu gostei muito. Ela teve que deixar seu filho de então dois anos [completou três em outubro], em casa, que não é muito legal. “Foi a coisa mais exaustiva, estar sem meu bebê.” Como é a vida como mãe? “É difícil pra caralho. Eu achei que fosse fácil. ‘Qualquer um faz essa porra, como pode ser difícil?’ Ohhhh…” ela suspira dramaticamente, “Eu não tinha ideia. É difícil, mas é fenomenal. É a melhor coisa que fiz. Ele me faz ser ridícula, e me faz sentir jovem e nada mais aterrado que uma criança negando o que você pede. Era costumada a ter meu próprio mundo ao meu redor, mas agora é ao redor dele.” A educação de Adele em frente ao seu filho é presumivelmente diferente. Vinda sozinha de Tottenham pela mãe, Penny, quem a pôs na Brixton Academy quando tinha três anos para ver The Beautiful South e The Cure, Adele veio para a classe média trabalhadora. “Eu tive uma incrível infância. Eu era muito amada, e agora eu percebo o quão importante é, sendo mãe. A maneira que eu vim, as lições de moral são as mesmas, mas o ambiente é muito diferente de como eu cuido da minha criança. Era engraçado e muito distante do que eu faço e eu estou consciente disso.

Semelhante a “Someone Like You”, “Hello”, que é produzida por Greg Kurstin, parece como “um momento”. Faz o seu coração erguer, cair e erguer novamente. “A música é sobre ferir os sentimentos de alguém mas também é sobre tentar ficar sã, mas algumas vezes é difícil de ser”, ela explica. “É sobre uma saudade para o meu outro lado. Quando estou longe, eu sinto muita falta de casa. O que o sinto quando eu não estou na Inglaterra, é…” ela pausa, “desespero. Não consigo respirar em qualquer outro lugar.” Por quê? “Não sei. Eu sou tão apegada à minha vida aqui. Eu fico nervosa quando estou perdendo algumas coisas. Então ‘Hello’ é sobre querer estar em casa e conversar com todos que feri – inclusive eu – me desculpar.”

No começo, pareceu que poderia ser um pedido de desculpas para o cara que ela paquerou, o cara de “Someone Like You”. “Por deus, não,” ela disse imediatamente. “Está acabado e pronto, obrigado. Está acabado e finalizado faz anos. Não, não é sobre ninguém especificamente. É sobre amigos, ex-namorados, sobre mim, sobre minha família. É sobre meus fãs também. Eu sinto que todo mundo acha que eu estou longe deles, mas não estou. Todos acham que eu vivo na porra dos Estados Unidos, mas não.” Ela tem a mentalidade da classe trabalhadora britânica, que todas as pessoas pensam – nós odiamos a ideia que alguém poderia pensar que acabamos, esquecemos nossas raízes. “Às vezes eu acho que as pessoas ficam preocupadas em falar comigo, pensam que eu mudei. Mas parece que não mudei. Não sinto que mudei.”

Ela tocou oito músicas no total. Paul Epworth, produtor de “Rolling in the Deep”, surge durante o hino “I Miss You”. Adele balança a cabeça junto, com os olhos fechados. É sobre sexo, correto? Ela pausa com outra gargalhada. “É sobre a intimidade em cada nível. É sobre sexo, sobre discussão, sobre um dos momentos mais íntimos da minha vida. Porque você perdoa. É tipo quando você fala as verdades quando está bêbado, honesto. É a minha pensamento sobre a vida. É o motivo pelo qual não gosto mais de beber. O pânico te toma quando acorda na manhã seguinte.” Até Adele teme O Medo.

When We Were Young” pode ser a “Rolling In The Deep” do “25”. Uma grande balada dos anos 70 produzida por Ariel Rechtshaid e co-escrita por Tobias Jesso Jr. um desconhecido (até Adele tuitar sobre ele para seus 23,4 milhões de seguidores) que ela descobriu depois de escutar a música “Hollywood”. Ela foi a Los Angeles e gravou no piano do Philip Glass, como você faz na casa do amigo de Tobias em Brentwood. “Ela costumava ser a casa de loucas festas e por alguma razão seu piano estava lá e nós escrevemos uma música nele.”

Million Years Ago”, produzida por Kurstin de novo, coloca mais lágrimas em nossos olhos. “Eu sinto falta do ar / Eu sinto falta dos meus amigos / Eu sinto falta da minha mãe / Eu sinto falta de quando a vida era uma festa para ser jogada / Mas isso foi há milhões de anos. “Você gostou dessa?” diz ela olhando genuinamente surpresa. “Essa foi gravada há três dias, no último minuto. É muito retrógrada, é muito ’19’. Só eu e um violão.” Ela decidiu então tocar mais uma música. “Você quer escutar uma do DangerMouse ou do Bruno Mars?” É uma decisão impossível, então ela toca ambas as canções. “River Lea” é tipo uma “Hometown Glory” 3.0: “Quando eu for criança eu vou crescer no River Lea / Agora estou um pouco molhada. Para saberem: eu nunca mudarei. Tottenham é minha mente, corpo e alma.” A do Bruno Mars é um tipo de tudo. “Nós estávamos fazendo alguma coisa legal, mas então nós fomos nos divertindo muito.” Joga um pedaço do ato das divas Barbara Streisand e Bette Midler na parede, efeito avassalador. Ainda tem um clímax. É brilhantemente ridículo. “Eu nunca tinha cantado tão forte na minha vida. Consegue imaginar a diversão que eu tive com o Bruno fazendo isso?” Sim, francamente.

Diferente dos dois primeiros álbuns, que têm um batidas únicas de soul, R&B e blues, “25” é firmemente centrado no pop contemporâneo. Entretanto, existem algumas pegadas dos anos 70The Carpenters, Aretha, Carly Simon e Stevie Nicks, quem ela conheceu recentemente no show do Fleetwood Mac na O2 Arena. Ela recorda com grande felicidade o encontro com ele. “Eu estava chorando, ah meu deus. Não gosto de chorar na frente de pessoas famosas porque é uma gafe e poderia fazê-los desconfortáveis. Mas não me contive.”

Muito tempo tem passado desde as gravações do “25”. Mas Adele não gostaria – nem poderia – ser interrompida. “Algumas vezes eu penso se eu perdi algo em torno de um ano, retomando o projeto. Mas você sabe, eu estava cuidando do meu filho. Não poderia interromper isso. E você tem que dar às pessoas uma chance de sentirem sua falta.” Ela tentou retornar aos estúdios em 2013, indo ao estúdio do seu amigo Kid Harpoon para tentar alguma coisa nova. “Apenas para rir. Foi um ‘tiro no escuro’ realmente. Tom e eu nos damos bem, então eu fui com ele, porque eu sabia que não haveria pressão. Nós apenas conversamos, principalmente, e comemos umas tempuras de chocolate. Não sabia o motivo de não estar preparada, eu não conseguia acessar meu interior.”

As coisas não caíram no lugar certo alguns meses antes, quando ela foi à Nova Iorque para trabalhar com Ryan Tedder, líder do OneRepublic e co-autor de “Turning Tables” e “Rumor Has It”. A primeira coisa que saiu em Nova Iorque foi a música “Remedy”, sobre a melhor amiga, seus avós, seu atual namorado e principalmente sobre seu filho, que teve junto com Simon Konecki (eles estão muito bem juntos, para sua informação, apesar das especulações de tabloides). “Porque ‘Remedy’ é muito linda, e eu amei muito cantá-la, fiquei empolgada como ‘Estou mandando bem!’ Eu estava mandando bem,” disse sem reação. “Então eu comecei a fazer batucar algumas músicas merdas – e elas não eram merda,” ela se corrigiu, “elas são ótimas músicas pop, mas eu estava tentando fazer da forma mais rápida, não queria pensar nisso. E, você sabe, foi rejeitado. Meu produtor estava tipo ‘Não está bom o bastante.’” Ai. “Sim, perturbou minha confiança um pouco, mas eu também sabia, entende. E então eu viajei com Rick Rubin, para tocar minhas músicas e ele estava tipo ‘Não acredito em você.’ Esse é o meu maior medo: as pessoas não acreditarem em mim. Então eu voltei para os rascunhos.”

Um dia, Tedder e ela estavam almoçando e “Trouble” da Taylor Swift tocou no rádio. “Eu estava tipo, ‘Eu amei essa música, quem a fez?’ e ele estava tipo ‘Max’, e eu, ‘o Max?’, e ele, ‘Max Martin!’, eu ‘o Max Martin?’” O maior escritor de músicas do mundo, ela descobriu depois que Tedder a enviou alguns clipes de seu trabalho. A música conquistou outro “momento” para o “25”. “Send My Love To Your New Lover” é um pouco da letra “Can’t Feel My Face” escrito por Martin para o The Weekend – totalmente inesperado. Tem uma vibe animada (“Um pouco animada, né? Você não pode ser fria todo o tempo”) e começa com um lindo verso: “Isto tudo era você / nada de mim nisso.” “Eu amo essa música, é depressiva pra caralho,” ela diz. “Imediatamente, um milhão de pessoas na minha vida ficarão, ‘Ai merda, o que eu fiz…’”

A conversa muda para o recente documentário “Amy”. “Eu assisti, sim,” ela disse. “Eu não iria. Eu a amava e fiquei enlutada como sua fã. Eu finalmente fui a um lugar onde eu senti muito bem sobre o impacto que ela teve em minha vida, em todas as maneiras. Eu senti muito apaixonada por tudo. Mas então eu li uma resenha que fizeram e fui assistir.” O que ela pensou? “Eu fiquei muito emocionada com a tomada do funeral. Mas eu não era aquelas de salvar mensagens de voz e coisas assim,” ela franze a testa. “Senti como se estivesse intrometendo e então me senti desconfortável e é aquilo que arruinou para mim. Eu amei vê-la, mas eu não queria ver. Você sabe, eu amo Amy. Eu sempre amei, sempre vou amar. Sabe o que me deixa pra baixo? Que eu nunca vou ouvir sua voz novamente, diferente de como eu ouvia.” Nós dois estamos com lágrimas nos olhos. As ligações entre Amy e Adele não podem ser ignoradas. Garotas do norte de Londres, com pais ausentes, que amavam Ellas e Ettas, que pensavam em lançar um ou dois álbuns, talvez fazer alguns currículos e seguir em frente com suas vidas. Não foi como o planejado para elas, e você pode dizer que isso as chocou. Mas há principais diferenças entre elas; isso explica o motivo da Adele estar aqui e Amy não.

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